Doença de Parkinson: o que o paciente e os familiares precisam saber?

Por Juliana Martins Pinto & Renata Cereda Cordeiro

O que é a doença de Parkinson?

A doença de Parkinson (DP) é uma enfermidade neurodegenerativa com grande prevalência na população idosa. Estima-se, em média, uma prevalência de 100 a 150 casos para cada 100 mil pessoas. O início da doença se dá por volta dos 60 anos e acomete ambos os sexos, raças e classes sociais.

A causa da doença é desconhecida, mas pode estar relacionada com fatores genéticos, toxinas ambientais ou endógenas, ainda não definidas. A DP se caracteriza pela perda progressiva das células da substância negra de uma região do cérebro, conhecida como mesencéfalo. Isso resulta em diminuição da produção da dopamina, que é um neurotransmissor essencial no controle dos movimentos do corpo. A deficiência de dopamina provoca uma perda de sua ação nos gânglios da base (estruturas envolvidas na modulação dos movimentos), determinando o aparecimento dos principais sinais e sintomas. Esses sinais se caracterizam pela perda de desempenho em atividades ou atos motores realizados anteriormente de forma automática, como, por exemplo, andar (dificuldade para iniciar e parar), levantar de uma cadeiras (a pessoa faz diversas tentativas para levantar e cai na cadeira ao invés de sentar-se), escrever (as letras vão ficando cada vez menores).

Os exames de imagem do cérebro não auxiliam diretamente no diagnóstico da doença, sendo úteis apenas para excluir outras doenças. Dessa forma, o diagnóstico da DP é clinico, ou seja, devem-se conhecer bem os sinais e sintomas, que são:

  1. Tremor (de repouso)
  2. Bradicinesia (lentidão e pobreza de movimentos)
  3. Rigidez (enrijecimento dos músculos)
  4. Alterações posturais (aumento da curvatura torácica) e instabilidade, que podem levar a quedas

Nem todos os pacientes que apresentam esses sintomas têm a DP, pois outras doenças podem causá-los. Da mesma forma, para ter a DP não é necessária a presença dos quatros sintomas ao mesmo tempo. Por isso, é importante o acompanhamento com o médico para que seja feito o diagnóstico correto. Em geral, a doença começa lentamente com o tremor, principalmente nas mãos e boca, lentidão e rigidez que podem aparecer em apenas um lado do corpo e depois atingir o outro lado.

Trata-se de uma doença é progressiva, irreversível e incapacitante. O tratamento farmacológico adequado pode manter a doença estável por vários anos, melhorando a qualidade de vida do paciente. Entretanto, esse tratamento vai apresentando limitações ao longo dos anos, com redução paulatina de seus benefícios e os efeitos colaterais (geralmente outros distúrbios do movimento) vão se instalando. É nesse sentido que o tratamento não-farmacológico é tão obrigatório quanto o medicamentoso, cuja combinação manterá a autonomia e independência do individuo.

A atuação do fisioterapeuta, do terapeuta ocupacional, do fonoaudiólogo e em alguns casos, do nutricionista e do musicoterapeuta, contribui substancialmente para que o paciente conviva com a doença com a menor perda funcional e o menor impacto emocional possível. Muitas vezes, a doença modifica muito a vida do paciente e da família, e surgem dificuldades para lidar com essa nova situação. A equipe multiprofissional, como um todo, atuará no sentido de proporcionar a recuperação do paciente, bem como, oferecer informações, estratégias e conforto a todos os envolvidos.

A seguir, apresentamos algumas orientações básicas que auxiliam no cuidado e no dia a dia do paciente, considerando-se, por ora, apenas o aspecto motor.

Algumas orientações práticas:

A.      Quem faz uso de medicamentos como a levodopa, percebe que quando o efeito do medicamento está chegando ao fim, começa a enfrentar mais dificuldades motoras. Costuma-se dizer que os pés ficam “colados” no chão ou que os movimentos ficam “congelados” (sintoma conhecido na literatura médica por freezing). Para minimizar esse problema, o paciente aprende a “destravar” os movimentos por meio do planejamento voluntário da atividade passo-a-passo, já memorizado em fisioterapia. Se preferir, pode usar pistas visuais ou auditivas. O fisioterapeuta é o profissional indicado para selecionar o melhor treino com vistas a esse fenômeno de fim de dose do medicamento.

B.      Exercícios: Antes de treinar as ações motoras do dia-a-dia, é importante alongar-se. Mas o detalhe é que esse alongamento deve ser feito preferencialmente de modo ativo, para que o paciente possa vencer mais facilmente a rigidez.

Alongamento simples

Exercícios que visem aumentar a mobilidade rotacional do tronco são fundamentais e de simples execução, com a pessoa ainda deitada na cama. Se realizado logo pela manhã, ajudará o paciente a levantar-se da cama. Exercícios respiratórios também são imprescindíveis para auxiliar na prevenção de rigidez da coluna e principalmente para evitar doença pulmonar relacionada à restrição dos movimentos da caixa torácica. Aliados a técnicas de relaxamento, contribuem para a redução da rigidez muscular e da ansiedade.

Exercício respiratório

E, finalmente, maiores desafios como fortalecimento muscular e condicionamento físico devem fazer parte do programa de reabilitação, pois a perda de força, resistência muscular, cardiovascular e a sensação de cansaço são conseqüências indiretas da doença.

Elevação do quadril

Excelentes dicas de exercícios de fácil compreensão e execução que podem ser incorporados diariamente podem ser encontradas clicando aqui (repare que as figuras são animadas!)

C.      Quando o paciente apresentar dificuldade para caminhar, o fisioterapeuta deverá prescrever e treinar um dispositivo de auxílio à marcha de acordo com a necessidade. A gravidade da doença, a idade e os problemas concomitantes (artroses, acidente vascular encefálico, neuropatia periférica, perda visual, etc.) é que determinarão o tipo de equipamento. Lembre-se: nunca aceite uma prescrição de equipamento sem ajustes e treino! O lugar do treino é o ambiente de REABILITAÇÃO e não a rua ou em casa sem supervisão! Quando o terapeuta liberar o uso do dispositivo na rua significa que o paciente está apto a usá-lo com SEGURANÇA.

Dispositivos de auxílio

D.      Terapias complementares: aliada à fisioterapia convencional, a Reeducação Postural Global (RPG), principalmente nos estágios iniciais da doença, permite reduzir as alterações posturais típicas da doença, impactando sobre o equilíbrio e mobilidade global. A acupuntura tem recebido forte atenção nos últimos anos e parece ser promissora, apesar da insipiência das evidências encontradas na literatura(1,2).
E.      A Terapia Ocupacional, a Fonoaudiologia e a Musicoterapia podem contribuir com outros exercícios e orientações. Leremos mais sobre isso em breve, aqui no blog.

Onde procurar ajuda:

Associação Brasil Parkinson

Avenida Bosque da Saúde, 1155 – São Paulo – SP

Contato: (11) 5578 8177

Recomendamos a leitura da entrevista com Michael J. Fox:

http://bemcomparkinson.blogspot.com/2009_11_01_archive.html

 Leitura principal:

Livro: Doença de Parkinson: Um Guia prático para pacientes e familiares. Hélio A. G. Teive. Lemos Editorial. São Paulo, 2000.

 Demais referências:

1.     Lee MS, Shin B-C, Kong JC, Ernst E. Effectiveness of acupuncture for Parkinson’s disease: a systematic review. Mov. Disord. 2008 ago 15;23(11):1505-1515.

2.     Chae Y, Lee H, Kim H, Kim C-H, Chang D-I, Kim K-M, et al. Parsing brain activity associated with acupuncture treatment in Parkinson’s diseases. Mov. Disord. 2009 set 15;24(12):1794-1802.

Licença Creative Commons
Doença de Parkinson: o que o paciente e os familiares precisam saber? de Juliana Martins Pinto & Renata Cereda Cordeiro é licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-NãoComercial-SemDerivados 3.0 Brasil.
Perssões além do escopo dessa licença podem estar disponível em http://reabgeronto.wordpress.com/fale/.

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