Dia mundial sem tabaco: por que o idoso também deveria cessar o hábito de fumar?

idoso cigarro

Hoje, 31 de maio, é o Dia Mundial Sem Tabaco. Criado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), neste ano a campanha tem como foco central a proibição de publicidade do tabaco, sua promoção e patrocínio.

Do ponto de vista da saúde coletiva, nos parece fazer muito mais sentido combater a dependência do tabaco entre os mais jovens do que entre os idosos. Isso porque ações de saúde pública efetivas na juventude levariam à compressão da morbidade a partir dos 40 anos, garantindo mais longevidade com menor período de incapacidade. Trata-se de uma meia-verdade científica que acaba pautando políticas públicas menos atentas aos idosos. Isso porque hoje já temos dados que sustentam que a eliminação de doenças crônicas na velhice comprime também a morbidade e garante anos de vida livre de incapacidade mesmo que essa intervenção venha a ocorrer nessa fase.

Segundo o estudo conduzido pelo médico geriatra Alessandro Campolina e defendido no ano passado na Faculdade de Saúde Pública da USP a eliminação de doenças crônicas na população idosa poderia levar a uma compressão da morbidade em homens e mulheres, tanto na idade de 60 anos, quanto na de 75 anos. Os maiores ganhos em expectativa de vida livre de incapacidade com a eliminação de doenças crônicas ocorreram dentre as mulheres, levando a um processo de compressão absoluta da morbidade. A doença cardíaca apresentou-se como aquela que mais promoveria a compressão da morbidade, caso fosse eliminada, em ambos os sexos. Hipertensão arterial sistêmica, doença articular, diabetes mellitus tipo 2, doença mental, doença pulmonar crônica e doença cerebrovascular, uma vez prevenidas, também contribuem de maneira significativa para a melhoria da qualidade de vida e para a longevidade dos idosos de acordo com o estudo que empregou informações do Projeto Saúde, Bem-Estar e Envelhecimento (SABE) e dados oficiais do município de São Paulo

Sabendo-se do papel do cigarro sobre as doenças cardíacas, cerebrovasculares e, principalmente doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC), fica claro que campanhas que fomentem a cessação do tabagismo também na idade madura conseguiriam garantir mais anos livres de incapacidades e suas consequências como a necessidade de cuidados especiais, reabilitação, internações, uso de medicações e toda a sorte de gastos excessivos.

Deste modo, combater o tabagismo em todas as fases do curso de vida trará benefícios em saúde para toda a população. Nunca é tarde para garantir melhor qualidade de vida, disposição física e menores complicações crônicas com a cessação do tabagismo em qualquer fase da vida. Fora os benefícios diretos, indiretamente os idosos que cessam esse hábito nefasto em suas famílias contribuem com valioso exemplo de superação, perseverança e estilo de vida saudável para as gerações mais jovens. Isso é parte de uma cooperação intergeracional.

Campanha da OMS 2013.

Campanha da OMS 2013.

Neste ano a OMS reforça a ideia de que as pessoas são manipuladas pela indústria do cigarro que não mede esforços em vender produtos relacionados ao tabaco de modo direto ou indireto. Como os governos passaram a reprimir muito a propaganda nos meios de comunicação de massa, a indústria criou meios furtivos de atingir seu público alvo, esperando criar um efeito viral na disseminação de seus produtos e marcas em novas mídias. Financiam eventos, baladas; aparecem  no cinema, redes sociais, etc.

Quando o assunto é tabagismo, qual é o tamanho do problema?

A exposição ao tabaco pode ser com e sem fumaça. Tabaco sem fumaça é consumido mascando-se ou cheirando-se ​​e contém vários compostos cancerígenos: tem sido associado com câncer bucal, hipertensão, doenças cardíacas e outras condições. Tabaco para fumar (cigarro), de longe, é a forma mais comumente utilizada no mundo e contém mais de 4.000 substâncias químicas, das quais 50 são conhecidos por serem cancerígenos.

Existem atualmente cerca de 1 bilhão de fumantes no mundo. Cigarros manufaturados representam a principal forma de tabaco fumado. Os fumantes hoje consomem aproximadamente 6 trilhões de cigarros por ano.

Riscos para a saúde do uso do tabaco são resultado não só do consumo direto de tabaco, mas também a exposição ao fumo passivo. Quase 6 milhões de pessoas morrem pelo uso do tabaco e sua exposição a cada ano, sendo responsável por 6% de todas as mortes dentre mulheres e 12% dentre homens em todo o mundo. Dessas mortes, pouco mais de 600.000 são atribuíveis à exposição ao fumo passivo dentre os não-fumantes e mais de 5 milhões para o uso do tabaco direto (com ou sem fumaça). No Brasil morrem aproximadamente 200.000 pessoas por ano por causas relacionadas ao tabaco.

Em 2020, as mortes relacionadas com o tabaco deverão aumentar para 7,5 milhões anuais, correspondendo a 10% das mortes naquele ano. Estima-se que fumar causa cerca de 71% de todas as mortes por câncer de pulmão, 42% das doenças respiratórias crônicas e cerca de 10% da doença cardiovascular. Fumar também é um importante fator de risco para as doenças transmissíveis como a tuberculose e as infecções respiratórias inferiores.

O hábito de fumar está presente em todas as faixas etárias, infelizmente. O gráfico abaixo foi gerado com base nos dados da Pesquisa por Amostra de Domicílios em 2008, os dados secundários mais recentes de que dispomos.

Fonte: DataSUS. IBGE - Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD).

Fonte: DataSUS. IBGE – Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD).

14,5% da população com mais de 60 anos é fumante. A mais elevada proporção se dá na faixa dos 45 aos 59 anos, com 24,3% da população com o hábito de fumar. Sendo quase um quarto da população de meia idade fumante, trata-se de um dado alarmante, visto que nessa faixa costumam surgir as primeiras doenças crônicas. A região Nordeste é que apresenta a maior proporção de fumantes idosos e a Sudeste, a menor. Em contrapartida, o tabagismo é menor na faixa etária mais jovem (12-29 anos) no Nordeste e maior no Sudeste, com quase 15%. 

Quais seriam as estratégias para a cessação do tabagismo?

Em primeiro lugar, é desejável que a pessoa tenha interesse na possibilidade de parar de fumar. Buscar orientações em serviços especializados, mesmo que ainda não esteja completamente certo de que quer parar de fumar, dá a chance de rever o hábito e, com sorte, de passar para a outra fase (querer parar de fumar, mas não estar pronto para ação imediata). A cessação do tabagismo requer tempo e recaídas são possíveis. É importante que a pessoa persista na participação de grupos de apoio ou terapias individuais focadas no treinamento de habilidades necessárias à mudança sustentável do comportamento.

Alguns medicamentos (nicotínicos ou não nicotínicos) podem ser indicados pelo médico segundo critérios específicos. Outros métodos, tais como acupuntura, hipnose, cigarros artificiais sem droga (os eletrônicos são proibidos pela Anvisa desde 2009), aromaterapia dentre outros podem ser empregados, porém, sem evidências científicas que apoiem seu emprego.

O Núcleo de Prevenção e Cessação do Tabagismo – Prevfumo, ligado à disciplina de Pneumologia da Unifesp, oferece tratamento gratuito para quem deseja abandonar o vício. O atendimento, com duração de um ano, é feito por uma equipe de médicos, fisioterapeutas e psicólogos. Foram feitos, em média, 1.500 atendimentos por mês em 2012. O PrevFumo fica na Rua dos Açores, 310, no Jardim Lusitânia, em São Paulo/SP. Para agendar uma avaliação inicial é só ligar no (11) 5904-8046 ou 5572-4301, de segunda à sexta-feira, das 8h às 16h.

Saiba mais:

World Health Organization (WHO) – World No Tobacco Day 2013. 

Vídeo da Campanha World No Tobacco Day 2013

WHO. Banning tobacco advertising, promotion and sponsorship – what you need to know. 2013.

INCA – Programa Nacional de Controle do Tabagismo. 

Ministério da Saúde. Instituto Nacional de Câncer (INCA). Coordenação de Prevenção e Vigilância (CONPREV). Abordagem e tratamento do fumante – consenso 2001. Rio de Janeiro: INCA, 2001, 38p. 

ARAUJO, Alberto José de et al. Diretrizes para Cessação do Tabagismo. J. bras. pneumol. [online]. 2004, vol.30, suppl.2, pp. S1-S76. 

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Licença Creative Commons
O trabalho “Dia mundial sem tabaco: combate ao tabagismo também na velhice” de Renata Cereda Cordeiro foi licenciado com uma Licença Creative Commons – Atribuição-NãoComercial-SemDerivados 3.0 Não Adaptada.
Com base no trabalho disponível em http://wp.me/p1dHJ9-bO.
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