Velhice e segurança financeira: construa e proteja seu patrimônio!

pouparNesta segunda-feira foi publicada uma matéria na Folha de São Paulo – caderno Mercado – que enfatizou a necessidade de se se planejar a estabilidade financeira necessária na velhice ainda em idades “tenras”, como a casa dos 30 anos. Quanto mais cedo o patrimônio pessoal for construído, maior a probabilidade de manutenção do poder aquisitivo na fase da vida em que alguns gastos se avolumam, como no caso dos gastos com saúde.

Não é possível apenas contarmos com soluções socializadas de longo prazo, pois a ineficácia de certas ações e instituições públicas salta aos olhos e é razão de parte dos gritos de ordem nos protestos que estamos presenciando. Há consenso de que as ações que ainda precisam de resolutividade estão muito centradas na Previdência e na Saúde, além da Educação.

O fator previdenciário, por exemplo, confere perdas médias reais em 40% nas aposentadorias e tem sido motivo de extenuantes debates. Trata-se tão somente de um mecanismo de controle de gastos da Previdência Social criado em 1999 e ainda vigente, com o desestímulo às aposentadorias precoces, marcado por um fator que varia o valor final da aposentadoria segundo a idade e a expectativa de vida. Aliás, as mulheres ainda sofrem perdas maiores quando se incide o fator previdenciário no cálculo das aposentadorias: para uma trabalhadora com salário de R$ 1.000, 51 anos de idade e 30 de contribuição, o fator reduz em 47,4% o valor do benefício. O INSS teria, então, que pagá-la R$526, mas como ninguém recebe menos do que o salário mínimo, a aposentadoria ficaria em R$ 678. O resultado esperado com essa medida inventada apenas para não ocorrer um rombo ainda maior no INSS frente ao envelhecimento populacional era a aposentadoria tardia, aumentando o período em que o trabalhador seguiria contribuindo, mesmo que já tivesse cumprido tempo de serviço. Uma crítica adicional é o que o fator impacta mais na vida de quem começou a trabalhar cedo, sendo bem menos prejudicial a quem iniciou a vida laborativa mais tarde.

Fonte: http://goo.gl/gnB64

A velhice pode ser uma fase de oportunidades, mas também de riscos. A miséria é um deles.
Fonte da imagem: http://goo.gl/gnB64

Bom, planejar a velhice apenas contando com o INSS não parece ser seguro. Isso porque, para continuar no mercado de trabalho, é necessário estímulo ao trabalho da pessoa madura. Não tem sido a realidade da maioria da população, defenestrada do mercado de trabalho na casa dos 45-50 anos, com poucas chances de retorno, principalmente se o trabalho não for intelectual. Um alto executivo na casa dos 50 seria muito mais visto como “prata da casa” em muitas empresas do que um peso morto. Com ganhos bem maiores e mais contínuos ao longo da vida, esses altos executivos planejam sua gradual aposentadoria de outras formas, portanto, sua situação nem está em pauta. São minoria. Para a maioria, há muita incerteza quanto à empregabilidade no decorrer de 30 ou 40 anos de idade economicamente ativa, pois a volatilidade do mercado é marcada pelas mudanças conjunturais das sociedades.

Essa reflexão me obriga a recorrer e citar nosso clássico gerontológico, “A Velhice”, de Simone de Beauvoir:

Eliminados cedo do mercado de trabalho, os aposentados constituem uma carga que as sociedades baseadas no lucro assumem mesquinhamente. Permitir aos trabalhadores que permaneçam ativos tanto tempo quanto possam, e garantir-lhes, em seguida, uma vida decente, é uma solução correta. Aposentá-los cedo, assegurando-lhes um nível de vida satisfatório, é também uma opção válida. Mas as democracias burguesas, quando retiram dos indivíduos a possibilidade de trabalhar, condenam a maioria deles à miséria. (Beauvoir, 1970, p. 277)

O fator previdenciário achatou as aposentadorias em 40% em média.  Fonte da imagem: Ian Jones (http://goo.gl/0MQAD)

O fator previdenciário achatou as aposentadorias em 40% em média.
Fonte da imagem: Ian Jones (http://goo.gl/0MQAD)

O artifício do fator previdenciário é, em tese, um bom estímulo à manutenção do cidadão no mercado de trabalho, o que se traduz em envelhecimento ativo. Um bônus do ponto de vista da saúde física e mental, desde que a pessoa de fato consiga se reinventar a todo momento para se adaptar às flutuações inevitáveis na carreira.

Na saúde pública, mais um palco de críticas. Subsídios federais a planos de saúde “baratos” que não entregam o que prometem é a mais nova realidade. Ao invés de estímulos ao fortalecimento do SUS, a saúde suplementar pouco regulada seria a resposta à degradação e ineficiência do sistema. Será mesmo que isso vai funcionar? Aliás, é muito salutar que sejam ainda debatidos os rumos do SUS e se esse é o sistema que o povo deseja. Bem, com a carga tributária que temos no Brasil, nada mais justo que saúde pública acessível e decente… Afinal, diante do cenário de parcos recursos na velhice somados à dependência de outras gerações sobre o recurso limitado das aposentadorias que deveriam alimentar e prover minimamente o idoso com todas suas despesas – muitas das quais, médicas – não há muita perspectiva de proteção patrimonial. A não ser que medidas sejam tomadas ainda na juventude.

Se o jovem cair na esparrela do crescimento econômico em parte pautado em estímulo ao consumo, especialmente de passivos, não irá muito longe. Sem poupar e sem um fundo de emergência, fatalmente acabará se endividando em algum momento da vida. E isso corroerá pouco a pouco suas chances de uma velhice financeiramente amparada.

Aos 31 anos, Marcos Chiarelli Filho dedica parte de sua rotina diária pensando em como investir para ter estabilidade financeira na velhice. O analista financeiro, que mora com os pais apesar de já possuir uma casa – que prefere manter alugada -, pretende se mudar apenas no ano que vem, quando planeja comprar um apartamento. ” Em 2009, fui desligado da empresa em que trabalhava e usei a indenização para dar entrada na casa. Com o aluguel, pago o financiamento. Assim, não comprometo meu salário, que poupo para a compra do apartamento.”

Bens como imóveis colocados para alugar são considerados patrimônio “ativo” – aquele que dá lucro. Para o educador financeiro Mauro Calil, da Academia do Dinheiro, é esse tipo de bem, gerador de renda, que deve ser foco de investimento ao longo da vida. O patrimônio “passivo”, como carros, que dão despesa, deve ser visto com cautela.

“Não estou dizendo para as pessoas não comprarem carros, por exemplo. Mas é preciso saber que os custos irão além do preço de aquisição, como gastos com combustível e seguro”, diz Calil. O consultor também afirma que o tempo é o maior aliado de quem pretende ter tranquilidade nas finanças. “Quanto mais tempo houver para poupar, maior será a facilidade em formar patrimônio.” (Figo, A. Poupe e se planeje para ter estabilidade financeira na velhice. Folha de São Paulo, Mercado, 24 de junho de 2013)

Para o gerontólogo, educação financeira é relevante não somente na velhice, mas em todo o curso de vida. Orientações simples deveriam fazer parte dos conteúdos escolares obrigatórios. Conceitos como orçamento, poupança, ativos, passivos, perfil de investidor, fundos, taxa Selic, inflação, riscos de aplicações, previdência privada, dentre outros, devem permear a vida prática das pessoas. Não pode ser um tabu.

Como bem postula um provérbio grego antigo, “o trabalho da juventude faz o descanso da velhice”.

poupar idosos

_____________________

Licença Creative Commons
O trabalho “Velhice e segurança financeira: construa e proteja seu patrimônio!” de Renata Cereda Cordeiro foi licenciado com uma Licença Creative Commons – Atribuição-NãoComercial-CompartilhaIgual 3.0 Brasil.
Com base no trabalho disponível em https://reabgeronto.wordpress.com/2013/06/24/velhice-e-seguranca-financeira/.
Podem estar disponíveis autorizações adicionais ao âmbito desta licença em https://reabgeronto.wordpress.com/fale.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s