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Calçados e risco de quedas em idosos, especialmente os diabéticos. Quais as soluções?

As quedas são um grave problema de Saúde Pública especialmente dentre idosos em virtude das suas consequências.

Dados do Ministério da Saúde vem  apontando que as quedas tem sido as principais causas de internação hospitalar dentre todas as demais causas externas (acidentes, violência, intoxicações, etc) desde 2008, independentemente da idade, tendo sido ainda mais prevalentes nas faixas etárias mais avançadas: somente em 2010 foram realizadas 102.809 internações hospitalares no Estado de São Paulo. Dessas, 26.572 foram de pessoas com 60 anos e mais (1). Além disso, somente em 2010 foram gastos R$ 28.152.274,15 com serviços hospitalares no Sistema Único de Saúde (SUS) para o tratamento de idosos internados em razão de ter sofrido uma queda. E esses gastos aumentam com a idade: enquanto são gastos R$ 8.152.274, 28 nas internações de pessoas com idades entre 60 e 69 anos, para aqueles com mais de 80 anos os gastos foram  de R$ 10.527.830,87.  Além da hospitalização, as quedas e suas consequências no envelhecimento constituem-se importantes causas de admissão em instituições de longa permanência (ILP) e morte dentre os idosos (1).

Dados epidemiológicos locais (região metropolitana de São Paulo) apontam que pelo menos uma queda no ano ocorre em aproximadamente 30% dos idosos da comunidade, enquanto que a recorrência desse fenômeno ocorre em aproximadamente 10% desses (2). Dentre os idosos residentes em instituições de longa permanência essa incidência aumenta para algo em torno da metade dos pacientes. Dentre os idosos diabéticos que são atendidos ambulatorialmente, 41% relataram ter sofrido ao menos uma queda; desses, 15,4% relataram ter sofrido duas ou mais quedas no período de um ano (3).

As quedas são decorrentes geralmente da conjunção de diversos fatores determinantes. Para simplificar, podemos dividir esses fatores em intrínsecos (ligados a características da própria pessoa) e extrínsecos (ligados a fatores relacionados ao comportamento da pessoa frente a situações de risco iminente e ao ambiente externo).

O risco para quedas pode estar relacionado a fatores individuais (intrínsecos) ou ambientais (extrínsicos)

Dentre os fatores intrínsecos, o equilíbrio e a mobilidade são seus principais representantes na população idosa. O diabetes mellitus isoladamente não é um fator que prejudica o equilíbrio dentre idosos, exceto quando acompanhado das complicações de longo prazo, de caráter crônico, que afetam as funções vasculares e nervosas primordialmente. Recente estudo nacional demonstrou que os idosos diabéticos atendidos em ambulatório têm maiores chances de perder o equilíbrio e a mobilidade conforme avança a idade, quando há prejuízo na sensibilidade proprioceptiva dos pés, quando já existem limitações para realizar suas atividades cotidianas, quando a integração dos diversos sentidos está prejudicada, quando há dificuldade em reagir a rápidos e abruptos estímulos desestabilizadores e quando há queda na pressão arterial ao ficar de pé a partir da posição deitada (3).

Com relação aos fatores extrínsecos, destacaremos o papel dos calçados. Se inadequados, eles podem aumentar as chances de escorregamentos, tropeços, tanto em ambiente interno como externo, a depender da alteração da sensibilidade dos pés por eles conferida – já suficientemente alterada pelo próprio diabetes – e das condições de atrito do solado no piso. O funcionamento natural dos pés é prejudicado pela escolha que as pessoas fazem pelos seus calçados, muito mais ligada a modismos do que ao conforto, estabilidade e proteção que eles deveriam representar (4).

Em regiões de clima quente é comum os idosos preferirem chinelos, andar descalços ou apenas de meias dentro de casa. A escolha pelos chinelos é comum também dentre idosos de ILP e hospitalizados, muitas vezes determinada pelo fato de serem flexíveis e capazes de acomodar facilmente as eventuais deformidades de um pé doloroso, além da óbvia facilidade em calçá-los. Em reabilitação detectou-se que 90% dos idosos escolhia calçados muito compridos ou demasiadamente largos em relação ao tamanho real de seus pés. Também existem pesquisas que demonstram um amplo uso de calçados mais estreitos do que seus pés, gerando calosidades, dor e feridas (4). Em resumo, a grande maioria dos idosos, seja na comunidade ou internados, tem dificuldade em determinar o melhor tipo de calçado que sirva em seus pés em virtude do desconhecimento quanto à sua importância para a segurança e/ou impedimentos de ordem financeira e a necessidade de acomodar as múltiplas deformidades ou a dor que os impede de se locomover com facilidade tanto em ambiente interno como externo.

Apesar de ser classificado como um fator de risco extrínseco para quedas, o tipo de calçado escolhido pode comprometer o equilíbrio das pessoas idosas, uma vez tornando instável a base de sustentação do corpo. As características dos calçados mais inseguros são: saltos acima de 2,5cm (4, 5), solados escorregadios, chinelos, meias, pouca fixação do calçado ao pé e na altura dos calcanhares e solado excessivamente macio. Muitas dessas características dos calçados são coerentes com as quedas em ambientes internos, como o residencial e ILP, onde o uso de chinelos, meias para andar curtas distâncias ou mesmo a ausência de calçados são mais frequentes. Como a sensibilidade dos pés dos idosos diabéticos está frequentemente diminuída, seria lógico pensarmos que não usar calçados contribuiria com a estabilidade na medida em que forneceria à pessoa toda a informação sensorial sobre a superfície de contato. Contudo, como é comum as pessoas serem condicionadas a usar sapatos desde a infância, esse não seria o caso (4).

Da mesma forma que o calçado pode prejudicar o equilíbrio, também pode conferir aumento de estabilidade quando o solado é mais rijo e quando o cano é mais longo, aumentando o contato do material com o tornozelo (figuras 1, 2 e 3). Esse último mecanismo seria responsável por facilitar as informações sensoriais a partir da altura do tornozelo e prover sustentação mecânica na altura dessa articulação, representando estabilidade (5).

Figura 1 – Formato de calçado padrão para prevenir quedas dentre idosos, preferencialmente com solado rijo e fino (5)

Figura 2 – Calçado com cano alto para aumentar a sensibilidade na altura dos tornozelos, especialmente quando se tratar de idoso diabético (5)

Figura 3 – Salto chanfrado para evitar escorregamentos durante a caminhada (5)

Qual seria, então, o calçado ideal para idosos que já caíram ou apresentam risco de quedas? Apesar do volume de pesquisas sobre calçados e quedas, não há ainda uma resposta definitiva. No entanto, pode-se sugerir que as pessoas idosas devem usar calçados com numeração adequada ao tamanho de seus pés tanto dentro de casa como fora, com salto baixo, solados finos e rijos para aumentar a sensação de estabilidade, salto chanfrado para diminuir as chances de escorregamento em superfícies lisas ou molhadas (4).

As pessoas com maiores prejuízos na mobilidade, como é o caso de residentes em ILP, apresentam menores trocas de calçados e menores oportunidades de caminhar na rua. Conforme o nível de mobilidade do idoso recomenda-se o fechamento do calçado por meio de velcros e não cadarços, fator de que desestimula o uso de sapatos nessa população. Além disso, podem acomodar melhor eventuais alterações como deformidades na parte superior do pé e inchaços ao longo do dia.

Referências

1.            Ministério_da_Saúde. Sistema de Informações Hospitalares do SUS (SIH/SUS). 2009.

2.            Perracini MR, Ramos LR. [Fall-related factors in a cohort of elderly community residents]. Rev Saude Publica. 2002 Dec;36(6):709-16.

3.            Cordeiro RC, Jardim JR, Perracini MR, Ramos LR. Factors associated with functional balance and mobility among elderly diabetic outpatients. Arq Bras Endocrinol Metabol. 2009 Oct;53(7):834-43.

4.            Menant JC, Steele JR, Menz HB, Munro BJ, Lord SR. Optimizing footwear for older people at risk of falls. J Rehabil Res Dev. 2008;45(8):1167-81.

5.            Menant JC, Steele JR, Menz HB, Munro BJ, Lord SR. Effects of footwear features on balance and stepping in older people. Gerontology. 2008;54(1):18-23.

 Licença Creative Commons
Calçados e risco de quedas em idosos, especialmente os diabéticos. Quais as soluções? de Renata Cereda Cordeiro é licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-NãoComercial-SemDerivados 3.0 Brasil.
Baseado no trabalho em https://reabgeronto.wordpress.com/2011/03/16/calcados-e-risco-de-quedas-em-idosos-especialmente-os-diabeticos-quais-as-solucoes/.
Perssões além do escopo dessa licença podem estar disponível em https://reabgeronto.wordpress.com/fale/.

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